Feliz de mim, que posso descer a ponte e achegar-me ao lago e aconchegar-me nos seus fantasmas. Não temo a noite, onde a lua é a única luz para abrir o caminho a histórias aconchegantes. Deixei de ouvir os meus passos, porque me sentei no meu trono, um banco de terra, coberto por erva macia, que certamente à luz do dia será verde. Agora tem apenas um tom escuro, mas suficientemente visível para eu saber onde me devo sentar. Uma sumida cor alaranjada, indica que o sol brilha em qualquer lugar, ainda que longe e simultâneamente uma nuvem ensombra a lua por uns minutos, obrigando algum lobo a uivar, como que reclamando. Um pássaro, que deve ter acordado, ecoou um canto ensonado, mas possivelmente voltou a dormir, pois o silêncio ganhou voz de novo.
Eu, talvez numa tentativa de acordar um pouco o lago, dei honra ao velho e infantil hábito de atirar pedrinhas à água, tentando medir a força do meu braço pela distância estabelecida entre o meu gesto e o som da água ao acolher a pedrinha com círculos de boas vindas.
Os meus olhos são atraídos pelo voo de uma águia que gira sobre a minha cabeça e grasna como que chamando alguém, avisando que me tinha encontrado.
- Mas quem procuraria por mim?- perguntei a mim mesma. Quem daria pela minha falta?
Os meus pensamentos foram interrompidos pelo casal de índios a quem eu habitualmente já tinha avistado e já tinha notado a sua cada vez mais curta distância. A lua, pareceu lançar maior luz sobre os seus vultos, talvez na tentativa, de que eu não me assustasse.
-Não tinhas partido para festejar o teu meio século de vida?- perguntou ele
-Sim! Mas na última estação não encontrei ninguém à minha espera. Todos os que ouviram, muitas vezes eu dizer, que só festejaria o meu aniversário, quando atingisse o meio século de existência, como marco entre o que já tinha vivido e o desejo de viver até completar um século completo, parecem ter esquecido e por isso voltei. Mas como conheces a razão que me levou a partir?- perguntei aos dois, agora já sentados ao meu lado. Também eles tinham ali um trono, naquele solo disponível a todos o que procurassem a voz da vida.
-Porque nenhum outro ser humano se tinha deslocado até aqui e ficado por tanto tempo. Nos teus passeios pela florestas os teus pensamentos e as tuas lágrimas vão deixando escrito, sem que precises de falar, tudo o que te inquieta e sentes. Mas temos um presente para ti- disse ela, sorrindo docemente e abrindo a palma da mão para me oferecer uma folha verde, onde estava escrito: “ Parabéns!“Comovida perguntei de quem era.
-De alguém que soube que farias hoje anos e mesmo sem te conhecer, quis estar presente. Escondi uma lágrima, a qual, o sorriso daquela de que eu já conhecia o nome “ Estrela da Tarde“, ordenara que se diluísse na beira do lago. De súbito, ele transformava uma flauta em sons musicais, acompanhados pela voz, quase que encantada da sua companheira. E num canto de um parabéns a você que eu nunca tinha escutado, festejaram os meus cinquenta anos e desejaram-me outros cinquenta de vida. Eu, num riso e num choro desafinado, agradeci à vida por ter um refúgio nas horas silenciosas e prometi dar mais horas e mais dois dias, ao dia onze de Fevereiro, para que aqueles a quem eu sempre tanto amei, tivessem a possibilidade de me dizerem: Parabéns pelo teu meio século!
No dia seguinte, recebi os parabéns de quatro pessoas... mas faltou o teu!
Fernanda Rocha Mesquita